A Carta
do Além
Impressionante
relato de
uma alma
condenada
ao
Inferno
Conta a história da condenação eterna de uma jovem. A carta foi encontrada tal qual entre os papéis de uma freira falecida, amiga da jovem condenada. Relata a freira os acontecimentos da existência da companheira como fatos históricos sabidos e verificados, e sua sorte eterna comunicada em sonho. A Cúria diocesane de Treves (Alemanha) autorizou sua publicação como sumariamente instrutiva. Mas foi o Revmo. Padre Bernhardin Krempel, C. P., Doutor em Teologia, quem a publicou em separado e quem lhe emprestou mais autoridade, provando-lhe, nas notas de pé-de-página, a absoluta concordância com a Doutrina da Igreja Católica sobre o assunto.
Este opúsculo é a transcrição fiel do outro opúsculo intitulado
Carta do Além, outrora impresso por Artes Gráficas Armando Basílio (Rua Júlia
Lopes de Almeida, 16 - RJ) e distribuído pela Livraria Clássica Brasileira
(Rua 1o de Março, 147, 2o andar - RJ), e que traz no
verso de sua primeira capa estes assentamentos: “Imprimatur do original alemão:
Brief aus dem Jeneseits: Treves, 9/11/1953. N. 4/53. Aprovação eclesiástica
deste opúsculo: Taubaté - Est. De São Paulo - 2/11/1955.
À
guisa de Prefácio
Com os homens Deus se comunica por muitos modos. Além de ser a própria
Sagrada Escritura a Carta Magna de Deus aos seus homens, escrita e transmitida
por homens autorizados, narra ela muitas comunicações divinas feitas por visões,
inclusive sonhos. Deus continua a prevenir, ainda, por sonhos. É que sonhos não
são sempre meros sonhos sem base.
A Carta do Além transcrita abaixo conta a história da condenação
eterna de uma jovem. À primeira vista, parece uma história bastante
romanceada. Bem consideradas, porém, as circunstâncias, chega-se à conclusão
de que ela não deixa de ter o seu fundo histórico, como base do seu sentido
moral e do seu alcance transcendental.
A carta em apreço foi encontrada tal qual entre os papéis de uma freira
falecida, amiga da jovem condenada. Relata a freira os acontecimentos da existência
da companheira como fatos históricos sabidos e verificados, e sua sorte eterna
comunicada em sonho. A cúria diocesana de Treves (Alemanha) autorizou sua
publicação como sumamente instrutiva.
A Carta do Além apareceu primeiro em livro de revelações e profecias,
juntamente com outras narrações. Foi o Revmo. Padre Bernhardin Krempel, C. P.,
Doutor em Teologia, quem a publicou em separado e quem lhe emprestou mais
autoridade, provando-lhe, nas notas de pé-de-página, a absoluta concordância
com a doutrina da Igreja Católica sobre o assunto.
No Apêndice seguem alguns esclarecimentos complementares sobre o
inferno. O primeiro ponta assinala dois trabalhos literários que por caminhos
diferentes chegam à mesma conclusão: que o Inferno deve existir e que de fato
existe. Nos seguintes pontos expões-se sumariamente quais são os que trilham o
caminho do Inferno e quais os meios que temos à mão para nos salvar do maior
perigo da vida, de cair no Inferno. Assim termina o opúsculo menos alarmante e
mais conciliatório.
O tradutor.
Informações
Preliminares
Entre os papéis deixados por uma jovem que morreu num convento como
freira, foi encontrado o seguinte depoimento:
“Tinha eu uma amiga. Quer dizer, éramos mutuamente achegadas como
companheiras e vizinhas de trabalho no mesmo escritório M.
Quando mais tarde Âni se casou nunca mais a vi. Desde que nos
conhecemos, reinava entre nós, no fundo, mais amabilidade que amizade.
Por isso eu sentia dela pouca falta, quando, após seu casamento, ela foi
morar no bairro elegante das vilas, bem longe do meu casebre.
Quando no outono de 1937 passei minhas féria no lago Garda, minha mãe
escreveu-me, em meados de setembro: “Imagine, Âni N. morreu. Num desastre de
automóvel perdeu a vida. Ontem foi enterrada no cemitério do Mato”.
Essa notícia espantou-me. Sabia eu que Âni nunca fora propriamente
religiosa. Estava ela preparada, quando Deus a chamou de repente?
Na outra manhã assisti na capela da casa do pensionato das Irmãs, onde
eu morava à santa Missa em sua intenção. Rezava fervorosamente por seu
descanso eterno e nessa mesma intenção ofereci também a santa Comunhão.
Mas o dia todo eu sentia certo mal estar, que foi aumentando mais ainda
pela tarde.
Dormia inquieta. Acordei de repente, ouvindo como que sacudida a porta do
quarto. Liguei a luz. O relógio, no criado-mudo, marcava meia noite e dez
minutos. Nada, porém, eu podia ver. Nenhum barulho havia na casa. Apenas as
ondas do lago Garda batiam, quebrando-se monotonamente, no muro do jardim do
pensionato. De vento, nada eu ouvia.
Tinha eu, todavia, a impressão de que ao acordar eu tivesse percebido,
além das batidas na porta, um ruído como que de vento, parecido ao do meu
chefe de escritório, quando mal humorado me atirava uma carta amolante sobre a
escrivaninha.
Refleti um momento, se devia levantar-me.
Ah! Tudo não passa de cisma, disse-me resoluta. Não é senão produto
de minha fantasia sobressaltada pela notícia da morte.
Virei-me, rezei alguns Pai-nossos pelas almas, e adormeci de novo.
Sonhei então que me levantava de manhã às 6 horas, indo à capela da
casa. Quando abri a porta do quarto, dei com um maço de folhas de carta. Levantá-las,
reconhecer a escrita de Âni e dar um grito, foi coisa de um segundo.
Tremendo, segurei as folhas nas mãos. Confesso que fiquei tão
apavorada, que nem podia proferir o Pai nosso. Fiquei presa de uma quase sufocação.
Nada melhor que fugir dali e ir-me para o ar livre. Arranjei malmente os
cabelos, pus a carta na bolsa e saí à pressa de casa.
Fora, subi o caminho que seguia tortuoso para cima, por entre oliveiras,
loureiros e quintas de vilas, e para além da mundialmente célebre estrada
Gardesana.
A manhã despontava radiante. Nos outros dias eu parava a cada cem
passos, encantada pela magnífica vista que me ofereciam o lago e a
magnificamente bela ilha Garda. O suavíssimo azul da água refrescava-me; e
como uma criança olha admirada para a avó, assim eu olhava sempre admirada de
novo o cinzento monte Baldo que se ergue na margem oposta do lago, crescendo de
Hoje eu não tinha olhos para tudo isso. Depois de caminhado um quarto de
hora, deixei-me cair maquinalmente sobre um banco encostado em dois ciprestes,
onde, no dia anterior, eu tinha lido prazerosamente A donzela Teresa. Pela
primeira vez eu via nos ciprestes símbolos da morte, coisa que neles nunca
reparava no Sul, onde tão freqüentemente se encontram.
Peguei a carta. Faltava-lhe a assinatura. Sem a mínima dúvida era a
escrita de Âni. Nem mesmo faltavam nela o grande “S” em voluta, nem o
“T” francês, a que se havia
acostumado no escritório para irritar o Sr. G.
O estilo não era dela. Pelo menos não falava como de costume. Sabia ela
tão amavelmente conversar e rir com seus olhos azuis e seu grandioso nariz!
Somente quando discutíamos
assuntos religiosos é que ela se tornava mordaz e caía no rude tom da carta. (
Eu própria entrei agora na excitada cadência da mesma).
Eis aí a Carta do Além de Âni V., palavra por palavra, tal qual a li
no sonho:
CARTA
DO ALÉM
Clara! Não rezes por mim.
Sou condenada. Se te comunico isso e se a respeito de algumas circunstâncias da
minha condenação te dou pormenorizadas informações, não creias que eu o faça
por amizade. Aqui não amamos a ninguém mais. Faço-o, como “parcela daquele
poder que sempre quer o Mal e sempre produz o Bem”.
Em verdade, eu queria também ver-te aqui, onde eu para sempre vim parar.
1
Não estranhes esta minha intenção. Aqui pensamos todos da mesma forma.
A nossa vontade está petrificada no mal - no que vós chamais “mal”. Mesmo
quando fazemos algo de “bem”, como eu agora, descerrando-te os olhos sobre o
Inferno, não o fazemos com boa inteção.2
Lembra-te ainda:
Faz quatro anos que nos conhecemos, em M. Tinhas 23 anos e já
trabalhavas no escritório havia meio ano, quando lá entrei.
Tiravas-me bastantes vezes de embaraços, davas-me a mim, principiante,
freqüentes bons avisos. Mas que é que se chama de “bom”!
1)
São Tomás de Aquino, Summa Theologica. Suplementtum, q.98,
a 4.: “Os réprobos querem que todos os bons sejam condenados”.
2)
S.
Th. Suppl., q
Eu louvava, então, tua “caridade”. Ridículo... Tuas
ajudas provinham de pura ostentação, como, aliás, eu já suspeitava.
Nós aqui não reconhecemos bem algum em ninguém!
Conheceste minha mocidade. Cumpre preencher, aqui, certas lacunas.
Conforme o plano de meus pais, eu não devia nunca haver existido.
Aconteceu-lhes um descuido, a desgraça da minha concepção.
Minhas duas irmãs já tinham 15 e 14 anos, quando eu vim à luz.
Oxalá nunca eu tivesse nascido! Oxalá pudesse eu agora aniquilar-me,
fugia a esses tormentos! Não há volúpia comparável à acabar minha existência,
como se reduz a cinzas um vestido, sem mesmo deixar vestígios. 3
Mas é preciso que eu exista; é preciso que eu seja tal como eu me tenho
feito: com a falha total da finalidade da minha existência.
Quando meus pais, ainda solteiros, mudaram-se da roça para a cidade,
perderam o contato com a Igreja.
Assim era melhor.
Mantinham relações com pessoas desligadas da religião. Conheceram-se
num baile e viram-se “obrigados” a casar meio ano depois.
No ato do casamento pegaram neles só algumas gotas de água benta,
suficientes apenas para atrair mamãe à Missa domingueira raríssimas vezes por
ano.
Nunca ela me ensinava a rezar direito. Esgotava-se nos cuidados de cada
dia, ainda que a nossa situação não fosse ruim.
Semelhantes palavras como rezar, missa, água benta, igreja, só escrevo
com íntima repugnância, com incomparável nojo. Detesto profundamente os freqüentadores
da igreja, assim como todos os homens e coisas em geral.
3)
S. Th. Suppl. Q
Tudo se nos torna tormento. Cada conhecimento recebido ao
falecer, cada lembrança da vida e do que sabemos, se transforma numa flama
incandescente. 4
E todas essas lembranças nos mostram aquele medonho lado que fora uma
graça que desprezamos. Como isso atormenta!
Não comemos, não dormimos, nem andamos com as pernas. Espiritualmente
acorrentados, nós réprobos, fitamos estarrecidos a nossa vida falhada, uivando
e rangendo os dentes, atormentados e cheios de ódio.
Ouves tu? Bebemos aqui ódio como água. Odiamo-nos mutuamente. 5
Mais do que tudo, odiamos a Deus. Procuro tornar-te isso compreensível.
Os bem-aventurados no Céu deve amá-Lo. Porque O vêem desveladamente em
sua arrebatadora beleza. Isso torna-os indescritivelmente felizes. Sabemos isso
e é esse conhecimento que nos torna furiosos. 6
Os homens, na Terra, que conhecem Deus pela criação e revelação,
podem amá-lo; não são forçados a
fazê-lo.
O crente - furiosa eu te digo aqui - que contempla, meditando, Cristo
estendido na cruz, O amará.
Mas a alma de quem Deus se acerca, fulminante, como vingador e
justiceiro, como Quem foi repelido, essa O odeia, como nós O odiamos. 7
Odeia-O com toda a força de sua má vontade. Odeia-O eternamente. Em
virtude da deliberada resolução de ficar afastada de Deus, com que terminou a
vida terrena. E essa perversa vontade, não podemos revogá-la mais nem jamais
quereremos revogá-la.
4)
S.
Th., q
5)
S.
Th., q
6)
S.
Th., q
7)
S.
Th., q
Forçada acrescento que Deus é propriamente ainda
misericordioso par conosco. Disse “forçada”. A razão é esta: ainda que
voluntariamente escrevo esta carta, não me é possível mentir, como eu bem
queria. Assento no papel muitas informações contrariamente à minha vontade.
Também a corrente de injúrias que queria despejar, tenho de reenguli-la.
Deus era misericordioso para conosco pelo que não deixou a nossa vontade
produzir e efetivar na Terra todo o mal que desejávamos fazer. Se Ele nos
tivesse deixado a esmo, teríamos aumentado muito a nossa culpa e castigo.
Deixou-nos morrer prematuramente -
como a mim - ou introduziu circunstâncias atenuantes.
Agora Ele Se nos torna misericordioso porque não nos obriga a nos
aproximar dEle, porém a ficarmos neste lugar distante do Inferno,
diminuindo-nos o tormento.8
Cada passo mais perto de deus dar-me-ia maior sofrimento do que a ti um
passo mais perto de uma fogueira.
Ficaste espantada um dia quando te contei, em passeio, o que meu pai
dissera alguns dias antes da minha primeira comunhão:
“Cuida, Anita, que ganhes bonito vestido; o mais não passa de
burla”.
Quase me teria mesmo envergonhado do teu espanto. Agora rio-me disso. O
mais bem feito, em toda essa burla, era permitir-se a comunhão apenas aos doze
anos. Eu já estava, então, assaz possuída do prazer do mundo, e não levei a
comunhão a sério.
O novo costume de deixar as crianças receberem a comunhão aos sete
anos põe-nos furiosos. Envidamos todos os meios para burlar isso, fazendo
crer que para comungar cumpre haver compreensão. É preciso que as crianças
já tenham cometido antes alguns pecados mortais. O “branco” Deus será
menos prejudicial, então, do que recebido quando a fé, a esperança e o
amor, frutos do batismo - escarro sobre tudo isso! - ainda estão vivos no
coração da criança.
8) S. th. I, q
Lembras-te que já sustentei esse mesmo ponto de vista na
Terra?
Torno a meu pai. Ele brigava muito com minha mãe. Raras vezes te frisei
isso: tinha vergonha. Ah! Que é vergonha? Coisa ridícula! A nós tudo nos é
indiferente.
Meus pais não dormiam mais no mesmo quarto. Eu dormia com minha mãe,
papai no quarto ao nosso lado, aonde podia voltar a qualquer hora da noite. Ele
bebia muito e gastou a nossa fortuna. Minhas irmãs estavam empregadas e
precisavam do seu próprio dinheiro, como diziam. Mamãe começou a trabalhar.
No último ano de sua amargurada vida, papai batia em mamãe muitas vezes,
quando não lhe queria dar dinheiro. Para mim ele era sempre bonzinho. Um dia,
contei-te isso e ficaste escandalizada sobre o meu capricho - e de que não te
escandalizaste em mim? - um dia, pois devolveu duas vezes sapatos novos, porque
a forma dos saltos não me era bastante moderna.9
Na noite em que uma apoplexia vitimou meu pai mortalmente, aconteceu algo
que nunca te confiei, por temer desagradável interpretação de tua parte.
Hoje, porém, deves sabê-lo. Esse fato é memorável, porque foi pela primeira
vez que o meu atual espírito carrasco se acercou em mim.
Eu dormia no quarto de minha mãe. Suas respirações regulares denotavam
seu profundo sono.
De repente ouvi chamar meu nome. Uma voz desconhecida murmurou: “Que
acontecerá, se teu pai morrer?”
Eu não amava mais meu pai, desde que ele começara a maltratar minha mãe.
Já não amava propriamente ninguém; só me prendia a alguns que eram bons para
mim. - Amor sem intuito natural existe quase só nas almas que vivem em estado
de graça. Nele eu não vivia.
Respondi assim ao misterioso interlocutor:
“Com certeza ele não morre”.
Após breve intervalo, ouvi a mesma bem compreendida pergunta, sem me
incomodar
9) Os assinalados traços sobre o pai de Âni e as ocorrências subsequentes são fatos.
de
saber de onde provinha.
“Qual o quê! Ele não está morrendo”, escapou-me casmurra.
Pela terceira vez fui interrogada: “Que acontecerá se teu pai
morre?”
- De relance me surgiu no espírito como meu pai freqüentes vezes
voltava para casa meio bêbado, ralhando e brigando com mamãe e quanto ele nos
envergonhava perante os vizinhos e conhecidos!
Gritei, então, embirrada:
“Pois não, é quanto merece! Que morra!”
Depois, tudo ficou quedo.
Na manhã seguinte, quando mamãe foi arrumar o quarto de papai,
encontrou a porta fechada. Ao meio dia abriram-na à força. Papai encontrava-se
meio vestido em cima da cama - morto, um cadáver. Ao procurar cerveja na adega,
deve se ter resfriado. Desde muito, estava adoentado.
(Será que Deus fez depender da vontade de uma criança, a quem o homem
demonstrava bondade, o conceder-lhe mais tempo e ocasião para se converter?)
Marta K. e tu me fizeste ingressar na associação das moças. Nunca te
escondi que achava as instruções das duas diretoras, das senhoras X., assaz
vigaristas. Achava os jogos bastantes divertidos. Conforme sabes, cheguei, em
breve, a sustentar neles papel preponderante. Isso era o que me lisonjeava. Também
as excursões me agradavam. Deixei-me até levar algumas vezes a confessar-me e
comungar. Propriamente não tinha nada para confessar. Pensamentos e sentimentos
comigo não entravam em conta. Para coisas piores eu não estava madura ainda.
Admoestaste-me um dia: “Âni, se não rezares mais, perder-te-ás”.
Eu rezavas realmente muito pouco; e também só contrariada, de má vontade.
Tinhas tu, sem dúvida, razão. Todos os que no Inferno ardem, não
rezaram, ou não rezaram bastante. A oração é o primeiro passo para Deus.
Sempre decisivo. Mormente a oração para Aquela que é Mãe de Cristo, cujo
nome não nos é lícito pronunciar. A devoção a Ela arranca ao demônio inúmeras
almas, que os pecados lhe teriam infalivelmente atirado às mãos.
Furiosa continuo, por se forçada: rezar é o mais fácil que se pode
fazer na Terra. Justamente a esse facilismo Deus ligou a salvação.
A quem reza com assiduidade, Deus dá, paulatinamente, tanta luz e
fortalece-o tanto que o mais afogado bode de pecador se pode definitivamente
levantar pela oração, ainda que esteja submerso na lama até o pescoço.
Nos últimos anos da vida eu deveras não rezava mais e assim me privava
das graças, sem as quais ninguém se pode salvar.
Aqui não recebemos mais graça alguma. Mesmo que a recebêssemos, com
escárnio a rejeitaríamos. Todas as vacilações da existência terrestre
acabaram no além.
Na vida terrena pode o homem passar do estado de pecado para o estado de
graça. Da graça pode cair no pecado. Freqüentes vezes caí por fraqueza;
raramente por maldade. Com a morte, terminou essa inconstância do sim e do não,
caindo e levantando-se. Pela morte, cada um entra no estado final, fixo e
inalterável.
À medida que avança a idade, tornam-se menores os saltos. É verdade
que, até à morte, a gente se pode converter a Deus ou virar-Lhes as costas. No
morrer se decide o homem, entretanto, com as últimas tremuras da vontade,
maquinalmente, tal como se acostumara na vida.
Bom ou mau hábito tornou-se uma segunda natureza. Esta o arrasta no
derradeiro momento. Assim também arrastou a mim. Anos inteiros eu vivera
afastada de Deus. Conseqüentemente, decidi-me no último chamamento da graça,
contra Deus. Não que o haver pecado muitas vezes me fosse uma fatalidade, mas
porque eu não me queria mais levantar.
Repetidas vezes me admoestaste a assistir à pregação e a ler livros
devotos. Eu escusava-me regularmente com a falta de tempo. Havia eu de aumentar
ainda mais a minha incerteza íntima?
Cumpre-me, aliás, firmar:
Quando cheguei a esse ponto crítico, pouco antes de minha saída da
associação das moças, ter-me-ia sido muito difícil enveredar por outro
caminho. Sentia-me insegura e
infeliz. Diante da minha conversão, levantou-se um paredão. Deves tê-lo
despercebido. Tu o tinhas imaginado tão fácil, quando uma vez me disseste:
“Faz, pois, uma boa confissão, Âni, e tudo ficará bem”.
Eu suspeitava que assim fosse. Mas o mundo, o demônio e a carne já me
segurava nas suas garras.
Na atuação do demônio eu não acreditava nunca. Agora atesto que, a
pessoas como eu então era, o demônio influencia poderasamente.10
Só muitas orações alheias e as minhas próprias, juntamente com sacrifícios
e sofrimentos, teriam conseguido arrancar-me dele.
E isso deveras só paulatinamente. Poucos possessos há corporalmente,
porém tanto mais e inúmeros interiormente possessos. O demônio não pode
tirar o livre arbítrio àquele que se entregam à sua influência. Contudo,
como castigo de sua apostasia quase total de Deus, este permite que o “Mau”
neles se aninhe.
Odeio também o demônio. Todavia gosto dele, porque ele procura
perder-vos: ele e seus auxiliares, os anjos caídos com ele desde os princípios
do tempo. Há miríades. Vagueiam
10) A influência dos maus espíritos encerra-se nos apelidos “demônio” ou “diabo”. Com comprovação da sua existência bastam dois textos da Sagrada Escritura: “Irmãos, sede sóbrios e vigiai! Vosso inimigo, o demônio, anda por aí como um leão rugindo e procurando a quem puder devorar” ( I Petr., 5, 8). O rugir não se refere a que satanás faça muito alarme com suas tentações, porém à avidez com que ele nos procura perder. _ S. Paulo escreve aos Efésios (8, 12): “Ponde a armadura de Deus, para que possais resistir às astúcias do demônio. Nossa luta não é contra carne e sangue (homens), porém contra os poderes dos tenebrosos dominadores deste Mundo e contra os maus espíritos dos ares”.
pela
Terra inúmeros como enxames de moscas, sem que sejam suspeitados.
A nós, homens réprobos, não nos incumbe de vos tentar; isso cabe aos
espíritos caídos.11
Aumentam, sim, ainda mais os seus tormentos toda vez que arrastam uma
alma humana ao Inferno. Mas de que não é capaz o ódio! 12
Ainda que eu andasse por veredas tortuosas, Deus me procurava. Eu
preparava o caminha à graça, por serviços de caridade natural, que por
inclinação de minha índole, não raras vezes prestava.
Às vezes atraía-me Deus para uma igreja. Lá eu sentia certa nostalgia.
Quando cuidava da minha mãe doente, apesar do meu trabalho no escritório
durante o dia, e sacrificava-me realmente um tanto, atuavam sobre mim
poderosamente essas atrações de Deus.
Uma vez - foi na capela do hospital, aonde me levaste no tempo livre de
meio dia - fiquei tão impressionada, que me encontrei a um passo apenas da
minha conversão. Eu chorava.
Em seguida, porém, vinha o prazer do mundo derramar-se, como uma
torrente, por sobre a graça. Os espinhos afogaram o trigo. Com a explicação
de que religião é sentimentalismo, conforme sempre se dizia no escritório,
lancei também essa graça, como outras, debaixo da mesa.
Repreendeste-me um dia que, em vez de genuflexão, fiz numa igreja uma
ligeira inclinação da cabeça. Tomaste isso como preguiça e não parecias
suspeitar de que, já então, não acreditava mais na presença de Cristo no
Sacramento. Agora creio nela, porém só naturalmente, como se acredita em
tempestade, cujos sinais e efeitos se percebem.
11) S. Th. Suppl., q.98, a 6, ad 3,: “Não é tarefa dos homens condenados perderem e tentarem outros, porém dos demônios”.
12)
S. Th. Suppl., q
Nesse ínterim, havia-me arranjado, eu própria, uma religião.
Agradou-me a opinião generalizada no escritório, de que, após a morte, a alma
voltaria para este Mundo em outro ser e passaria por outros e mais outros seres,
numa sucessão sem fim.
Com isso liquidei o angustiante problema do além e imaginava tê-lo
tornado inofensivo.
Por que não me lembraste a parábola do gozador rico e do pobre Lázaro,
em que o narrador, Cristo, imediatamente após a morte, mandou um para o
Inferno, o outro para o Paraíso? Mas o que terias conseguido? Nada mais do que
com tuas demais palavras beatas.
Aos poucos eu própria arranjei um deus: bem privilegiado para se chamar
deus; de mim bastante longe para não me obrigar a relações com ele; assaz
confuso, para se transformar, à vontade e sem mudar de religião, num deus
panteístico ou até tornar-me orgulhosa deísta.
Esse “deus” não tinha um céu para me galardoar nem inferno para
amedrontar-me. Deixei-o em paz. Nisso consistia a minha adoração a ele.
No que se ama, acredita-se facilmente. No curso dos anos tinha-me eu
assaz persuadido da minha religião. Vivia-se bem com ela, sem que ela me
incomodasse.
Só uma coisa me teria quebrado a nuca: uma dor profunda, prolongada. Mas
este sofrimento não veio. Compreende agora: “A quem Deus ama, Ele castiga”?
Era num dia de verão, em julho, quando a associação das moças
organizava uma excursão para ª Gostava eu, sim das excursões. Mas não das
beatarias anexas!
Outra imagem, diferente da de Nossa Senhora das Graças de A estava,
desde pouco, no altar do meu coração. O grã-fino Max N. do armazém ao lado.
Pouco antes conversáramos divertidamente algumas vezes. Convidara-me, nessa
ocasião, para fazermos uma excursão naquele mesmo domingo. A outra com que
costumava andar, estava no hospital.
Reparara, sim, que eu tinha deitado um olhar sobre ele. Mas eu não
pensava ainda em casar-me com ele. Era rico, porém amável demais para com
muitas e quaisquer mocinhas; até então eu queria um homem que me pertencesse
exclusivamente, como única mulher. Certa distância sempre me era própria.
(Isso é verdade. Com toda a sua indiferença religiosa, Âni tinha algo
de nobre em seu ser. Espanto-me de que também pessoas “honestas” possam
cair no Inferno, se são assaz desonestas para fugirem do encontro com Deus)
Nessa excursão, Max cumulou-me de todas as amabilidades. Conversações
de beatas é que não tivemos, como vocês.
No outro dia, no escritório, repreendeste-me porque não vos acompanhei
até A . Contei-te os meus
divertimentos domingueiros.
Tua primeira pergunta foi: “Estiveste na Missa?” .
Louca! Como podia assistir à Missa, desde que combinamos a saída para 6
horas! Lembras-te, ainda, que juntei, excitada: “O bom Deus não é tão
mesquinho como os vossos padrecos!”? Agora, cumpre-me confessar-te que, apesar
de sua infinita bondade, Deus toma tudo mais a sério do que os padres.
Após esse primeiro passeio com Max, assisti mais umas só vez à vossa
reunião. Na solenidade de Natal. Certas coisas me atraíam. Mas interiormente,
já estava apartada de vós.
Cinemas, bailes, excursões, seguiam-se. Brigávamos às vezes, Max e eu,
mas eu sabia prendê-lo sempre a mim.
Mui desagradável me foi a rival que, de volta do hospital, se comportava
como furiosa. Propriamente a meu favor. Minha calma distinta causou grande
impressão a Max e obrigou-lhe, afinal, a decisão de me preferir.
Eu sabia denegri-la, rebaixá-la. Falando com calma: por fora, realidades
objetivas; por dentro, atirando peçonha. Semelhantes sentimentos e insinuações
conduzem rapidamente ao Inferno. São diabólicos, no verdadeiro sentido da
palavra.
Por que te conto isso? Para constar como fiquei definitivamente livre de
Deus.
Para esse afastamento não foi preciso que eu chegasse com Max muitas
vezes às últimas familiaridades. Compreendi que me rebaixaria aos seus olhos,
se me deixasse esvaziar antes do tempo. Por isso me retinha vedava.
Realmente estava eu sempre pronta para tudo que achava útil. Cumpria-me
conquistar Max. Para isso nada achava caro de mais. Amamo-nos aos poucos, pois
que ambos possuíamos valiosas qualidades que podíamos apreciar mutuamente. Fui
talentosa e tornei-me hábil e conversadora. Cheguei, assim, a prender Max nas mãos,
segura de que o possuía sozinha, pelo menos nos últimos meses antes do
casamento.
Nisso consistia minha apostasia de Deus, em fazer uma criatura o meu
deus. Em coisa alguma pode isso realizar-se tão plenamente como entre pessoas
de diferentes sexo, se o amor se afoga na matéria. Isso torna-se seu encanto,
seu aguilhão e seu veneno. A “adoração” que eu me prestava a Max,
tornou-se-me uma religião vivida.
Era no tempo quando, no escritório, tão virulentamente eu caía em cima
das corridas à igreja, dos padrecos, do murmurejar de rosários e das demais
bugigangas.
Empenhaste-te, mais ou menos inteligentemente, em proteger tudo isso;
aparentemente sem suspeitares de que para mim, em última análise, não se
tratava dessas coisas, mas propriamente de ponto de apoio contra minha consciência
que eu estava procurando - dele eu precisava ainda - para justificar
racionalmente a minha apostasia.
No fundo eu vivia revoltada contra Deus. Tu não percebias isso. Sempre
me consideravas ainda católica. Com tal, queria eu também ser chamada; até
mesmo pagava a contribuição para a igreja. Certa “ressalva” não me podia
fazer mal, pensava eu.
Por mim certas que às vezes fossem tuas respostas, de mim ressaltavam,
porque tu não devias ter razão. Em face dessas nossas relações
entrecortadas, a dor da nossa separação era pequena, quando meu casamento nos
distanciou.
Antes do meu casamento, confessei-me e comunguei mais essa vez. Era uma
formalidade. Meu homem pensava como eu. De resto, por que não haveríamos de
satisfazê-la? Cumprimo-la como qualquer outra formalidade.
Vós o chamais “indigno”. Após aquela “indigna” comunhão eu
tinha mais sossego de consciência. Era essa a última. Nossa vida matrimonial
decorria, em geral, em boa harmonia. Em quase todo os pontos tínhamos a mesma
opinião. Também nisso: não nos queríamos impor o encargo de filhos. No
fundo, meu marido desejava ter um - naturalmente não mais. Eu soube
arrancar-lhe, finalmente, essa idéia. Eu gostava mais de vestidos e mobílias
finas, de tertúlias de chá, de passeios de automóvel e de semelhantes
divertimentos.
Era um ano de prazeres terrenos entre o casamento e minha repentina
morte.
Cada domingo passeávamos de automóvel ou visitávamos parentes de meu
esposo - de minha mãe eu me envergonhava então. Esses nadavam bem, como nós,
na superfície da existência.
Interiormente, porém, nunca me sentia deveras feliz. Algo roía-me
sempre na alma. Eu desejava que pela morte, a qual sem dúvida havia de demorar
muito tempo ainda, tudo acabasse.
Mas é como em criança eu ouvira uma vez fala, em sermão, que Deus
recompensa já neste Mundo o bem que alguém pratica. Se não pode recompensá-lo
no outro mundo, fá-lo na Terra.
Sem o esperar, recebi uma herança (da tia Lote). Meu marido teve a sorte
de ver seu salário consideravelmente aumentado. Assim pude instalar mimosamente
a nossa casa nova.
Minha religião estava nas últimas, como um vislumbre do ocaso no
firmamento longínquo. Os bares e cafés da cidade e os restaurantes por onde
passávamos nas viagens, não nos aproximaram de Deus.
Todos os que lá freqüentavam, viviam como nós: de fora para dentro, não
de dentro para fora.
Visitando uma célebre catedral, nas viagens de férias, procurávamos
deleitar-nos com o valor artístico de obras primas. O sopro religioso que
irradiam, mormente as da Idade Média, eu sabia neutralizá-lo,
escandalizando-me em qualquer circunstância da visita. Assim, a um irmão leigo
que nos conduzia, eu criticava o comércio de piedosos monges que fabricavam e
vendiam licor; criticava as eternas badaladas de sinos chamando para igrejas,
onde trata apenas de dinheiro.
Assim eu conseguia afastar de mim a graça, cada vez que me batia à
porta.
Mormente deixava meu mau humor derramar-se livremente sobre tudo que
tratava de antigas representações do Inferno em livros, cemitérios e outros
lugares, onde se viam demônios fritarem as almas em fogo vermelho ou amarelo, e
seus sócios, de cauda comprida, trazerem-lhe mais e mais vítimas.
Clara, o Inferno pode ser mal desenhado, porém nunca ser exagerado.
Sobretudo escarnecia eu sempre do fogo do Inferno. Lembras-te como numa
conversa sobre isso eu te meti um fósforo aceso debaixo do nariz burlando: “É
assim que cheira!”?
Tu apagaste tão logo a chama. Aqui ninguém a extingue. - Digo-te mais:
o fogo de que fala a Bíblia, não significa tormento de consciência. Fogo
significa fogo. Cumpre entendê-lo em sentido real, quando Aquele declarou:
“Afastai-vos de Mim, malditos, ide para o fogo eterno”. Literalmente!
- Como pode o espírito ser tocado pelo fogo material? Perguntas.
- Como então pode, na Terra, tua alma sofrer, segurando teu dedo na
chama?
- Tua alma também não se queima, mas que dor tem de aturar o homem
todo!
Semelhantemente estamos nós aqui presos ao fogo em nosso ser e em
nossas faculdades. Nossa alma fica privada do seu vôo natural; não podemos
pensar nem querer o que queremos. 13
13) S. Th. Suppl., q
Não procures esclarecer o mistério contrário às leis da natureza
material: o fogo do Inferno queima sem consumir.
O nosso maior tormento consiste em que sabemos exatamente que nunca
veremos Deus.
Quanto pode torturar o que na Terra nos era indiferente! - Enquanto a
faca está em cima da mesa, deixa-te fria. Vês-lhe o fio, porém não o sentes.
Mas entra a faca na carne e gritarás de dor.
Agora sentimos a perda de Deus; antes só a víamos. 14
Todas as almas não sofrem igualmente. Quanto mais frívolo, maldoso e
decidido alguém foi no pecar, tanto mais lhe pesa a perda de Deus, e tanto mais
torturado se sente pela criatura abusada.
Os católicos condenados sofrem mais do que os de outra crença, porque
receberam e desaproveitaram, em geral, mais luzes e mais graças.
Quem sabia mais, sobre mais do que aquele que menos conhecimentos tinha.
Quem pecou por maldade sofre mais do que aquele que caiu por fraqueza.
Mas nenhum sofre mais do que mereceu. Oxalá isso não fosse verdade,
para que eu tivesse motivo para odiar!
Tu me disseste um dia: ninguém cai no Inferno sem que o saiba. Foi isso
revelado a uma santa. Ria eu disso, no entanto me entrincheirava atrás desta
reflexão: nesse caso me ficaria suficiente tempo para me converter - assim eu
pensava no íntimo.
O enunciado calha. Antes do meu fim repentino, decerto não conhecia o
Inferno tal qual é. Nenhum entre humano o conhece. Mas eu estava exatamente
inteirada disso: Se tu morreres, entrarás na eternidade como revoltada contra
Deus. Suportarás as conseqüências.
Conforme declarei já, não voltei atrás, mas perseverei na mesma direção,
arrastada
14) “A separação de Deus é um tormento tão
grande como Deus” (frase atribuída a Santo Agostinho, Cf.
Houdry, Bibliotheca concionatorum, Veneza, 1786, vol. 2, sob Infernus,
#4, p. 427).
pelo
costume, com que os homens agem tanto mais calculada e regularmente, quanto mais
velhos ficam.
Minha morte ocorreu do modo seguinte:
Há uma semana - falo de acordo com vossa contagem, porque, calculada
pelas dores, eu poderia já estar ardendo no Inferno havia dez anos - faz pois
uma semana que meu marido e eu fizemos, num domingo, uma excursão, que foi a última
para mim.
Radiante despontara o dia. Eu sentia-me bem, como raras vezes.
Perpassou-me, porém, um sinistro pressentimento.
Inesperadamente, na viagem de volta, meu marido que vinha guiando o carro
e eu ficamos ofuscados pela luz de um automóvel que vinha em sentido contrário
e com grande velocidade. Meu marido perdeu a direção.
Jesus! Estremeci. Não como oração, mas como grito. Senti uma dor
esmagadora por compressão - uma bagatela em comparação com o tormento atual.
Perdi então os sentidos.
Estranho! Naquela manhã mesma, nascera-me inexplicavelmente a idéia:
poderias, enfim, mais uma vez ir à Missa. Soava-me como súplica. Claro e
decidido, meu “não!” cortou o fio da idéia. Com isso devo acabar
definitivamente. Tomo sobre mim todas as conseqüências. Agora as suporto.
O que aconteceu após a minha morte, tu conheces. A sorte de meu marido,
de minha mãe, do meu cadáver e enterro, tudo te é conhecido até nos
pormenores, como sei por uma intuição natural que todos nós temos. Do mais
que acontece no Mundo, só temos um conhecimento confuso. Mas o que nos tocava
de perto conhecemos. Assim conheço também teu paradeiro. 15
Acordei das trevas no momento da minha morte. Vi-me de repente
envolvida de luz ofuscante. Era no mesmo lugar onde estava o meu cadáver.
Aconteceu como em teatro,
15) S. Th. Suppl., q
quando
de repente apagam as luzes, a cortina é ruidosamente removida e aparece a cena
tragicamente iluminada: a cena de minha vida.
Como num espelho, assim eu vi minha alma. Vi as graças pisadas aos pés,
desde a juventude até o último “não!” dado a Deus.
Apossou-me de mim uma impressão como que de assassino levado ao tribunal
à frente da sua vítima inanimada. - Arrepender-me? Nunca! 16 -
Envergonhar-me? Jamais!
Entretanto nem me era possível permanecer na vista de Deus, negado e
reprovado por mim. Restava-me uma só coisa: a fuga.
Assim como Caim fugiu do cadáver de Abel, assim minha alma se atirou
longe desse aspecto horrível.
Esse era o Juízo particular.
O invisível Juiz falou: “Afasta-te!” Logo caiu minha alma, como uma
sombra sulfúrica, no lugar do tormento eterno! 17
16)
S. Th. Suppl. , q
17) “É certo que o Inferno é um local determinado. Mas onde esse local fica situado, ninguém sabe”. A eternidade das penas do Inferno é um dogma: seguramente o mais terrível do todos. Tem suas raízes na Sagrada Escritura, cf. Mt. 25, 41 e 46; II Thess. 1, 9; Jud. 13; Apoc. 14,11 e 20,10; todos eles são textos irrefutáveis, em que “eterno” não se deixa trocar e interpretar por “longo”. Se não fora conveniente ilustrar esse dogma num caso particular, nem o próprio Nosso Senhor teria podido fazê-lo na parábola do rico folgazão e do pobre Lázaro. Lá fez o mesmo que aqui vem feito: desenhou o Inferno e como se pode cair nele. Não o fez por prazer sensacional, porém levado pela mesma intenção que ocasionou esta publicação. A finalidade deste folheto encontra sua expressão no seguinte conselho: “Desçamos ao Inferno ainda vivos, para que moribundos nele não caiamos”. _ Este conselho dirigido a casa um não é senão a paráfrase do Salmo 54: “Descendat in infernum viventes, videlicet, nedescendant morientes”, a qual se encontra numa obra (erradamente) atribuída a São Bernardo (Patr. Lat. Migne, vol. 184, Col. 314 b).
Últimas
informações de Clara
“Assim finalizou a carta de Âni sobre o inferno. As últimas palavras
eram quase ilegíveis, tão tortas estavam as letras. Quando eu acabara de ler a
última palavra, a carta toda virou cinza.
Que é que lá ouço? Por entre os duros acentos das linhas que eu
imaginava ter lido ressoou doce som de sino. Acordei de vez. Achei-me ainda
deitada no meu quarto. A luz matinal da aurora penetrava nele. Da Igreja
paroquial vinham as badaladas das Ave-Marias.
Pois tudo era apenas um sonho?
Nunca eu sentira na Saudação Angélica tanto consolo como após esse
sonho. Pausadamente fui rezando as três Ave-Marias. Tornou-se-me então claro,
claríssimo: a Ela cumpre segurar-te, à bendita Mãe do Senhor, venerar a Maria
filialmente, se não quiseres ter a mesma sorte que te contou - ainda que em
sonho - uma alma que jamais verá Deus.
Espantada e tremendo ainda pela visão noturna, levantei-me, vesti-me
depressa e fugi para a capela da casa.
O coração palpitava-me violenta e descompassadamente. Os hóspedes,
ajoelhados mais perto de mim, olhavam-me preocupados. Talvez pensassem que, por
haver eu corrido escada abaixo, estivesse tão excitada e vermelha.
Uma
bondosa dama de Budapeste, grande sofredora, franzina como uma criança, míope,
todavia fervorosa no serviço de Deus e de longo alcance espiritual, disse-me à
tarde no jardim: “Senhorita, Nosso Senhor não quer ser servido no
expresso”.
Mas ela percebia então que outra coisa me havia excitado e ainda me
preocupava. Ajuntou bondosamente: “Nada te deve angustiar - conheces o aviso
de Santa Tersa - nada te deve alarmar. Tudo passa. Quem possui Deus, nada lhe
falta. Só Deus basta”.
Quando sussurrava isso mesmo, sem qualquer tom de mestra, parecia-me ler
na minha alma.
“Deus só basta”. Sim, Ele há de me bastar, neste e no outro mundo.
Quero ali possuí-Lo um dia, por mais sacrifícios que aqui eu tenha ainda de
fazer para vencer. Não quero cair no Inferno.
Apêndice
- Esclarecimentos complementares
1)
Confirmação
do terrível dogma do Inferno
a) Existe o inferno? - Provas pedidas ao Bom Senso. - Pe. Lacroix -
Editora S. C. J., Taubaté - Eis o primeiro opúsculo original que apareceu
entre nós sobre o palpitante problema do Inferno (1a edição em
1929 e 2a em 1937), com 231 págs., de formato médio (15 x
Como
cada dogma da Igreja tem suas razões filosóficas, tiradas do bom senso humano,
e como correm mundo, de boca a boca, os mesmos sofismas contra a existência do
Inferno, cuidou o autor em salientar, sobretudo, as razões opostas do bom senso
comum e examinar, em seguida, o valor das provas aduzidas. Por fim, expõe, no
cap. IX, a universalidade da crença no Inferno e, no cap. X, a respectiva
doutrina do Cristianismo.
Em abono da crença geral no Inferno entre os Judeus, cita o autor os
seguintes tópicos da Bíblia: Moisés (Deut. 32, 22), Jó (c. 10), Judite (16,
21), Isaías (33, 14 e 34, 24), Jeremias (23, 40), Daniel (12,2) e São João
Batista (Mat. 3, 12), e conclui: “Eis aí testemunhos de grande valor, alguns
dos quais de veneranda antigüidade. Muitos séculos, pois, antes da história
grega e latina, já existia a crença no Inferno, sendo que os Livros sagrados
falam nele muitíssimas vezes como numa verdade reconhecida por todos, ao menos
por todos os crentes”.
Estendia-se a crença do Inferno (Tártaro) e no Purgatório a todos os
povos pagãos do mundo antigo. Quanto mais progrediram na cultura, tanto mais
documentos deixaram dessas crenças, desde os Assírios, Caldeus e Egípcios até
os Gregos e Romanos. Muitos poetas e escritores falaram dessa crença geral
entre eles, senão da própria universalidade dessa crença entre todos os povos
do mundo. O autor cita os seguintes: Homero, Orgeu, Hesíodo, Lino, Horácio, Ovídio,
Virgílio, Sêneca etc.; Sócrates, Platão, Aristóteles, Cícero, Lucrécio,
Celso. Eis, como exemplo, um trecho impressionante de Lucrécio (De natura rerum,
lib. I, III): “Já não se tem mais sossego, é impossível dormir tranqüilo:
por que? Porque se tem que recear, depois desta vida, penas eternas, pelo medo
das quais nenhum mortal pode ser feliz...”. O ímpio Voltaire confessa ( Addit.
À l’Hist. Génér.): “A opinião da existência tanto de um Purgatório
quanto de um Inferno é da mais remota antigüidade”. - Surgindo subterfúgios
em contrário cumpre não esquecer as palavras de Joubert (Pensées et Essais et
Maximes, t I, p. 318): “Desde que um raciocínio ataca o instinto e a prática
universal, pode ser difícil refutá-lo, mas certissimamente é enganador e
falso”. (p.194)
No Novo Testamento salienta-se a crença na existência do Inferno como
uma das verdades fundamentais da religião de Cristo. Nosso Senhor não
assinalou essa verdade só duas ou três vezes e superficialmente, porém quinze
vezes, e isso do modo mais explícito e impressionante, como em Marcos (9, 42),
Lucas (16, 19) e Mateus (25, 41). Também os Apóstolos se referiram repetidas
vezes ao castigo do fogo eterno, como São Judas (c.7), São Paulo (II Tess. 1,
9) e São João (Apoc. 14, 11; 20, 10). No sentido óbvio de todos esses textos
existe, insofismavelmente, o fogo eterno do Inferno.
b) Cristo e os demônios - Dr. P. Armando Polz (171 págs. De formato
francês), editoras S. C. J., Taubaté - O assunto demônios é correlativo ao
do Inferno. Se existem espíritos condenados por Deus ao castigo eterno do
Inferno, e se esses procuram arrastar consigo, na perdição eterna, o maior número
possível de homens, claro é que deve existir, para todos os réprobos, como
que uma imensa cadeia infernal, tal como aponta a fé cristã, um braseiro de
tormentos eternos horríveis.
Na
introdução, o autor dá uma orientação geral acerca do assunto, expondo a
crença pagã, judaica e cristã sobre os demônios.
Quem deve perfeitamente conhecer os demônios não é senão o próprio
Deus e Nosso Senhor Jesus Cristo. De inúmeros textos da Sagrada Escritura tira
e concretiza o autor a palavra de Cristo sobre os demônios. Na 1a
parte assinala nove características dos demônios; na 2a parte prova
o triunfo de Cristo sobre eles todos. Da absoluta superioridade de Cristo sobre
o demônio tira o autor a última conclusão da incontestável divindade de
Cristo.
Se, pois, existem os demônios, tais quais o próprio Cristo os pintou,
como inimigos de Deus e dos homens, deve existir o Inferno, ao qual todos eles
estão condenados para sempre, juntamente com os homens seduzidos por eles e
revoltados contra Deus.
2.
No
caminho do Inferno estão os ímpios e os pecadores impenitentes
Os ímpios vêm a ser chamados também os sem-Deus. Nada querem saber de
Deus, nem de Cristo e de sua Religião. Chegam mesmo a odiá-los e persegui-los.
Formam o imenso exército de satanás neste Mundo. A ele pertencem, como chefes
invisíveis, a maçonaria e as similares sociedades secretas. A ele pertencem
todos os niilistas, anarquistas, bolchevistas e comunistas militantes do Mundo.
A ele pertencem todos os sem - Deus, que O negam teórica ou praticamente e
vivem sem Ele. Inúmeros estão nessa condição. A conseqüência é fatal:
como nada querem saber de Deus durante a vida e perseguem a religião o mais que
podem, sua sorte eterna não pode ser senão a dos sem - Deus, a serem relegados
ao Inferno e atormentados pelos demônios por toda a eternidade.
No caminho do Inferno estão igualmente todos os pecadores impenitentes.
São Paulo preveniu (I Cor. 6): “Não vos enganeis: nem os ímpios, nem os idólatras,
nem os ladrões, nem os avarentos, nem os ébrios possuirão o reino do Céu”.
Além dos pecados de ação há os de omissão, deixando-se de cumprir graves
obrigações de estado ou de profissão, do estado matrimonial, sacerdotal ou
religioso, da profissão exercida ou do cargo assumido. Ninguém pode
dispensar-se do seu cumprimento. Daí resulta na vida de cada um, a
possibilidade de cometer numerosos pecados mortais, por pensamentos, palavras e
obras, pecados de orgulho, de injustiça e de luxúria.
Se o pecado grave em si merece o castigo do Inferno, só atira ao mesmo,
caso não seja retratado, arrependido e reparado, como acontece na impenitência
final do homem que morre em seu pecado ou impenitente. Errar e pecar é humano,
mas obstinar-se no erro e perseverar no pecado, é diabólico. Se no momento de
pecar o homem se deixa facilmente fascinar pelo deleite pecaminoso, logo depois
de cometido o pecado, os olhos se lhe abrem e volta-lhe o bom senso; ele
sente-se então naturalmente envergonhado e levado ao arrependimento. Se pelo
contrário ele se obstinar no pecado, tanto mais culpado ele se torna. A obstinação
no mal é um pecado contra o Espírito Santo. O adiamento da conversão leva
muitíssimas vezes ao sumo castigo da impenitência final e conseguintemente ao
Inferno.
N. B. - Como dedução lógica do que vem exposto cumpre finalmente notar
que, além dos declarados inimigos de Deus, cairão fatalmente no Inferno todos
os que desse nada querem ouvir, ler e saber, e que com ele não se importam e
vivem como se ele não existisse.
3.
Alternativa
fatal
Deus colocou o homem num mundo de maravilhas que o encantam, com a ordem
de dominar as criaturas, de usá-las sem abusar delas, de dar a Ele o que Lhe
deve, de adorá-Lo, glorificá-Lo
sobre tudo, e de amar o próximo como a si próprio. Deu-lhe suficiente inteligência,
para discernir o bem do mal, e suficiente força para evitar o mal e praticar o
bem. Pela oração oferece-lhe quantas graças ele precisar, para cumprir o seu
destino.
Enquanto o homem vive na Terra, acha-se atirado entre dois extremos,
entre a definitiva posse de Deus no Céu e a sua definitiva perda no Inferno.
Cumpre-lhe escolher entre o Sumo Bem e o Sumo Mal. Por sua vida revela-se pró
ou contra Deus, amigo de Deus ou revoltado contra Ele. Se o homem preferir os
bens perecíveis deste Mundo às recompensas espirituais do outro, perderá
todos eles, os deste e os do outro Mundo. No fim da vida ficará relegado ao
extremo oposto Deus, entregue aos demônios e abandonado aos mais horríveis
tormentos do Inferno.
Cada dia da sua vida encontra-se o homem de novo nesta terrível
alternativa, quanto a sua sorte definitiva eterna. A essa alternativa ninguém
pode fugir. Para todos é a fatalidade final. Ao morrer, cada um receberá a
recompensa do que tiver preferido em sua vida terrestre cada dia mais
seguramente: ficará com Deus no Céu eternamente, ou ficará relegado ao
Inferno, para o lugar da reprovação eterna e de tormentos sem fim. Ninguém
escapará a esse dilema, a essa alternativa fatal. Ninguém fugirá das mãos de
Deus. Diante de Deus, não há fuga possível, senão para Ele.
4.
Temor
e amor de Deus
Antes
de tudo insistiu Nosso Senhor para com seus ouvintes na indispensável
necessidade do santo temor a Deus. Basta lembrar o texto de São Mateus (10,
28): “Não temais aos que podem trucidar o corpo, mas não podem matar a alma.
Muito antes temei Aquele que pode atirar corpo e alma ao Inferno”. - O papel
que na vida espiritual cabe ao temor a Deus é básico: “É a última barreira
contra a qual vem esbarrar a violência da tentação. Se ela ficar firme, o
homem se salva do naufrágio do pecado. Se ela não resistir, torna-se ele vítima
da própria perversidade” (p. 62 da obra citada). Em realidade: “O temor de
Deus é o início da sabedoria”. (Prov. 1, 7)
O temor e o amor a Deus não se excluem, mas superpõem-se e completam-se
mutuamente. Entre ambos há mais o motivo de interesse. Temor, interesse e amor,
lícitos ou ilícitos, são os três únicos motivos que põem e mantêm o Mundo
inteiro em movimento. Se o amor a Deus não é suficiente para levar o homem a
cumprir a lei de Deus, restam os dois primeiros motivos, o do próprio interesse
e o do temor a Deus. Esse é o último recurso de Deus para obrigar o homem a
andar direito e cumprir os seus deveres. Deus aceita o serviço e o
arrependimento humanos inspirados pelo temor reverencial
ou filial, como também os inspirados pelo medo ao castigo, pelo que o
pecador se afasta realmente do pecado, porque ofende e irrita a Deus. Fora da
confissão, só vale a contrição perfeita de amor a Deus para se obter perdão.
Resulta daí o imenso benefício e a imensa vantagem que a Confissão oferece
aos Católicos.
Foi
por amor ao homem que Deus criou o Mundo com todas as suas belezas. Foi por amor
que Deus destinou o homem a viver um dia juntamente com Ele no Céu, em
companhia de todos os Anjos e Santos. No entanto, o homem devia querer e merecer
essa felicidade, e tornar-se digno da companhia divina por uma adequada vida e
fidelidade a Deus. Esta é a razão do estado transitório do homem e da provação
a que ele está submetido neste Mundo até a sua morte. O próprio Inferno, Deus
o criou por amor aos homens, para obrigar-nos a quase forçar-nos a amá-Lo
devidamente. Mas quem se recusar a se render ao amor de Deus e obstinar-se por
maldade em servir aos ídolos da Terra, perderá fatalmente o Céu com a eterna
felicidade, e cairá no Inferno de tormentos eternos. Enquanto, porém, o homem
continuar a viver neste Mundo, Deus procura, sem cessar, atraí-lo para Si e
convertê-lo, oferecendo-lhe graça e perdão. De braços abertos acolherá a
qualquer momento o filho pródigo contrito, com suma bondade e misericórdia.
5.
Ilimitada
confiança na infinita bondade e misericórdia de Deus
(Revelações tiradas de Convite a uma vida de Amor, de Sóror Josefa Menéndez,
2a ed., 1948, das págs.
Ensinar-te-ei os meus segredos de amor, e tu serás exemplo vivo da minha
Misericórdia, porque, se tenho tanto amor e predileção por ti que não és
mais que miséria e nada, que não farei Eu por muitas outras almas mais
generosas do que tu?
Farei conhecer que a minha obra repousa sobre o nada e a miséria, e que
esse é o primeiro anel de cadeia de amor que desde toda a eternidade preparo às
almas.
Farei conhecer até que ponto o meu Coração as ama e lhes perdoa. Vejo
o íntimo das almas. ... O ato de humildade que fazem reconhecendo suas
fraqueza. ... Pouco se Me dá a fraqueza delas. ... Supro o que lhes falta.
Farei conhecer como é que o meu
Coração se serve dessa fraqueza para dar a vida a muitas almas que a perderam.
Farei conhecer que a medida do meu Amor e da minha Misericórdia para com as
almas caídas não tem limites. ...
Se tu és um abismo de miséria, Eu sou um abismo de Bondade e Misericórdia.
O meu Coração é teu refúgio. Vem procurar nele tudo aquilo de que precisas,
ainda mesmo que se trate de coisa que Eu te peça.
Não julgues que deixarei de amar-te por causa das tuas misérias, não:
meu Coração ama-te por causa das tuas misérias, não: meu Coração ama-te e
não te abandonará jamais. Bem sabes que é propriedade do fogo abrasar e
destruir: assim é próprio do meu Coração perdoar, purificar e amar.
Não te disse muitas vezes que o meu único desejo é que as almas Me dêem
as suas misérias? Se não ousas aproximar-te de Mim, aproximar-Me-ei Eu de ti.
Quando mais fraquezas encontrares em ti, tanto mais Amor encontrarás em
Mim. Pouco Me importam as tuas misérias, o que Eu quero é ser o Dono de tua
miséria.
A tua pequenez dá lugar à minha grandeza. ... A tua miséria e mesmo os
teus pecados dão lugar à minha Misericórdia. ... A tua confiança atrai o meu
Amor e a minha Bondade.
Não vos peço senão aquilo que tendes. Dai-Me o vosso coração vazio e
Eu o encherei; dai-Mo despido de tudo e Eu o revestirei; dai-Me as vossas misérias
e Eu as consumirei. O que não vedes, Eu vo-lo mostrarei! ... Pelo que não
tendes, responderei Eu.
Há muitas almas que crêem em Mim, mas poucas que acreditam no meu Amor;
e, entre as que acreditam no meu Amor, são pouquíssimas as que contam com a
minha Misericórdia. ...
Se peço amor em correspondência ao que Me consome, não é o único
retorno que desejo das almas: desejo que creiam na minha Misericórdia, esperem
tudo da minha Bondade, e não duvidem nunca do meu perdão.
Sou Deus, mas Deus do Amor! Sou Pai, mas Pai que ama com ternura e não
com severidade. O meu Coração é infinitamente santo, mas também é
infinitamente sábio e, como conhece a miséria e a fragilidade humanas,
inclina-se para os pobres pecadores com Misericórdia infinita.
Amo as almas depois que cometeram o seu primeiro pecado se vêm pedir-Me
humildemente perdão. ... Amo-as ainda, quando choram o seu segundo pecado e, se
isso se repete, não digo um bilhão de vezes, porém milhões de bilhões de
vezes, amo-as e perdôo-lhes sempre e lavo no meu Sangue o último, como o
primeiro pecado!
Não Me canso das almas e o meu Coração espera sempre que venham
refugiar-se nEle, por mais miseráveis que sejam! Não tem um pai mas cuidado
com o filho que é doente, do que com os que têm boa saúde? Para com esse
filho, não são maiores as suas delicadezas e a sua solicitude? Assim também o
meu Coração derrama sobre os pecadores, com mais liberalidade do que sobre os
justos, a sua compaixão e a sua ternura.
Quantas almas encontrarão a vida nas minhas palavras! Quantas cobrarão
ânimo ao ver o fruto dos seus esforços: um pequeno ato de generosidade, de
paciência, de pobreza, pode vir a ser um tesouro e ganhar para o meu Coração
um grande número de almas. ... Eu não atendo à ação: atendo à intenção.
O menor ato, feito por amor, pode adquirir tanto mérito e dar-Me tanta
consolidação! O meu Coração dá valor divino às menores ações. O que
quero é amar. Não procurar senão amor. ... Não peço senão amor.
O fogo eterno do Inferno será a merecida paga pelo Amor de Deus
desprezado, calcado aos pés.